A utopia vive!

A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.

Uso essa famosa frase de Eduardo Galeano para falar da Utopia Moreniana. Ela surgiu da visão de Jacob Levy Moreno, criador do Psicodrama.Para ele, sua criação era capaz de promover a transformação de bairros, cidades, países…Seu sonho era “curar o mundo”, devolvendo às pessoas a capacidade criativa e espontânea que todos temos dentro de nós. Para fazer isso, Moreno defendia o uso de brincadeiras, jogos e teatros improvisados. Defendia ainda que os terapeutas saíssem de seus consultórios e parassem com os atendimentos individuais. Para Moreno era preciso (e ele assim o fazia) ir para as ruas, praças, presídios e trabalhar com os grupos em seus ambientes naturais.

Essa utopia eu carrego comigo há uns cincos anos mais ou menos. Sim, ela é um tanto quanto megalomaníaca, mas eu também sou. Acredito mais no poder transformador do humor e das expressões artísticas do que na escuta clínica e na postura neutra da Psicologia. Mas essa não é uma opinião muito fácil de sustentar no meio acadêmico. Você não pertenceria aos grupinhos mais populares se dissesse algo do tipo em uma aula de psicodiagnóstico, por exemplo. Mas como bem diz meu mais novo escritor favorito, Luiz Felipe Pondé: “E daí?”

Por algum tempo achei que eu pertencia a um grupo muito pequeno de sonhadores, pois mesmo dentro do universo do Psicodrama eu não encontrava muitas pessoas com esses devaneios messiânicos. É aí que entra a minha experiência no Congresso Mundial de Improvisação Aplicada. Foram alguns dias convivendo com 200 pessoas de todos os cantos do mundo. Culturas, idiomas, roupas e hábitos muito diferentes, mas todos muito bem humorados, sonhadores e humanos. Que experiência! Conheci pessoas que trabalham com crianças com autismo e outros transtornos de desenvolvimento, com pacientes terminais, em presídios, com pesquisadores, com pessoas em vulnerabilidade social e por aí vai… Desde o primeiro dia, me senti muito conectado com as pessoas do evento. Todos se cuidavam, se interessavam uns pelos outros, se olhavam nos olhos, validavam as opiniões mais diferentes…Mesmo quando não havia concordância, havia um clima de aceitação das diferenças. Enfim, todos tinham uma postura muito espontânea e que favorecia e encorajava o ensaio de nossas melhores versões.

O mais doido (ou óbvio) era que muitos dos presentes não eram psicodramatistas ou psicólogos. As formações eram as mais diversas: atores, designers, médicos, filósofos, músicos professores escolares e universitários… Todos reunidos para compartilhar conhecimentos e traçar planos de como dominar o mundo (no bom sentido, é claro).

Enfim, escrevo isso para contar a vocês que o número de malucos com intenções nobres está crescendo pelo mundo. Eu antes achava que estava quase só, hoje sei que estamos em número suficiente para fazer barulho e provocar mudanças significativas por aí.

A utopia de Moreno vive e, como Galeano mesmo afirma, ela segue nos fazendo caminhar! Não quer se juntar a nós?

“O Senhor vê as pessoas no ambiente artificial do seu Gabinete. Eu vejo-as na rua, na casa delas, em seu ambiente natural. O Senhor analisa os sonhos das pessoas. Eu procuro dar-lhes mais coragem para que sonhem de novo. Ensino as pessoas a como brincarem de ser Deus”.* Desabafo de Jacob Levy Moreno a Freud.

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