Walk the Talk

“Somos assim: sonhamos o vôo, mas tememos a altura. Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o voo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência das certezas. Mas é isso o que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o vôo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.” Fiódor Dostoiévski.

Desde que estamos trabalhando e vivendo o sonho da Improvisação Aplicada admito que já vivi uma salada de frutas de sensações. Primeiro, a explosão da transformação interna (a própria descoberta do material). Testar, experimentar, modificar e sentir o impacto do novo instrumento.

Em seguida, a vontade de compartilhar, que não estava sozinha, é claro, vinha abraçada com o medo de nos percebermos pretensiosos ao pensar que a descoberta poderia servir a mais pessoas. Pedimos licença para o medo, solicitando que ele esperasse no lado de fora da porta da sala a cada terça-feira que abríamos uma noite de experimentação ao público. Quando voltávamos para conversar com ele e pedir sua opinião, o medo já não estava mais ali. Ele só voltava a aparecer na segunda-feira da semana seguinte, quando nos reuníamos para pensar que jogos usaríamos, como apresentaríamos os princípios da improvisação, e quem iria dirigir o encontro. Suas visitas foram ficando menos frequentes, chegando ao ponto de só aparecer para lembrar o quão ousados éramos de envolver tantas pessoas na “nossa loucura”.

Que bom que ousamos. Conseguimos construir uma forma de trabalho que nos permite ver e viver muita diversão, transformação, encontros, erros, risadas, arte e muito crescimento. Enfim algumas certezas: queríamos continuar estudando, aprimorando e construindo nosso modelo de trabalho, e foi exatamente o que fizemos.

Nossa pesquisa, no entanto, sempre foi intuitiva. Apoiados na sólida teoria psicodramática, sentíamos segurança em trabalhar as questões emocionais de um grupo e, ao mesmo tempo, nos aventurávamos nas descobertas da Improvisação. Não foi fácil pesquisar sem referências próximas, pois tudo o que encontrávamos vinha de pesquisas internacionais (de pessoas que já trabalham com a metodologia há muitos anos, mas que estão geograficamente muito distantes do Brasil).

Avançamos e produzimos muito nos primeiros anos de trabalho, fazendo surgir sensações de profunda realização. É engraçado perceber como buscamos certezas. Estávamos prontos para falar sobre os poderes e os impactos da Improvisação Aplicada com a mesma convicção de que 2 + 2 = 4. Isso se manteve até o momento da inscrição na Conferência Mundial da AIN (Applied Improvisation Network), realizada na última semana de setembro de 2015, em Montreal, Canadá. No mesmo instante que concluí a inscrição, o senhor medo surgiu com um sorrisinho no canto dos lábios: colocaríamos à prova toda a nossa pesquisa, todas as nossas certezas.

Mas o medo não estava sozinho, vinha acompanhado da curiosidade, da empolgação e da alegria. Elas falavam todas ao mesmo tempo, tornando difícil ouvir cada uma: “Uau!! Os melhores nomes da improvisação! Como será que eles trabalham? Caramba! Será que eles conhecem Psicodrama? Faremos parte da rede internacional! Será que vamos encontrar outros brasileiros? Montreal!!! Viajar! Cultura, gente nova, novas ofertas! Chega logo!”

Elas seguiram falando, por todos os dias de espera pela viagem e por todo o trajeto até lá. O medo era mais silencioso, mas se fazia notar. Estava ali para lembrar que era preciso saber se estávamos fazendo “certo”.  Finalmente chegamos. Chegamos e fomos todos surpreendidos com uma enxurrada de experiências incríveis, que alimentaram, e ao mesmo tempo silenciaram todas as vozes.

Não era mais preciso fazer esforço nenhum: estávamos no lugar certo, na hora certa, com as pessoas certas.

 Foto: Alex Tran (http://alextranphotography.com) – Um fotógrafo canadense com uma habilidade ímpar em captar momentos incrivelmente sensíveis.

Encontramos nossa tribo espalhada pelo mundo inteiro. Foi estranhamente familiar reconhecer a linguagem presente nas falas e nas ações dos improvisadores das mais diferentes culturas.

Pela primeira vez encontrei uma comunidade que inspira, expira e age de acordo com o que acreditam.

Foi possível enxergar a Improvisação em cada olhar, em cada fala, em conversas informais, no momento das refeições, nas pausas, nas trocas. A congruência entre o sentir, o pensar e o agir (muito bem retratada e estudada pela Antroposofia) era tão óbvia, que assustava. Será que é mesmo verdade? Pela primeira vez entendi o significado da expressão da língua inglesa “Walk the talk” (agir de acordo com o que se diz).

Sem esforço algum, fomos recebidos de braços e almas abertos. Os primeiros brasileiros a participar de uma conferência da AIN (nós) foram tratados como antigos colegas de escola. Recebemos uma aula sobre atenção plena, interesse, curiosidade, mindful, SIM E, aceitação, abertura, presença, conexão, colaboração, arte, encontro, ação, empatia. O mais incrível foi perceber que o aprendizado começava muito antes dos workshops iniciarem e se estendia muito além do seu término. Tudo se transformou em ofertas e nada passou despercebido.

Ainda é difícil descrever tudo o que aprendemos, pois sabemos que os grandes aprendizados da vida nos transformam pela emoção. Definitivamente, a experiência dessa semana em Montreal se mantém viva dentro de cada um de nós, reverberando sensações que precisam ser compartilhadas. Sobre meus companheiros de viagem: o medo cedeu seu lugar no vôo para a coragem; a curiosidade ficou farta de tanto ser alimentada; enquanto a empolgação e a alegria conseguiram voltar ainda mais intensas, prontas para a próxima missão: espalhar todo esse conhecimento e essa incrível energia mundo afora. O desafio está lançado, começando pelo Brasil, é claro! 🙂

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