Improvisação é amor

Quando visualizei o tema da Conferência Mundial de Improvisação Aplicada de 2015 senti um frio na barriga – Back to Nature – de volta à natureza. Parecia que já sabia o que eu iria sentir. Na hora que li, estava na minha cama com notebook no colo e fui pega por aquela sensação imediatamente. Coração calmo, cheiro da umidade da terra e o vento  batendo em minha pele, me trazendo uma sensação de conexão e plenitude. Mente quieta. Paz.  Minhas memórias cheias de vida vêm desse lugar, quando andava a cavalo com o meu avô e parecia que tudo fazia sentido. Assim que senti aquela sensação decidi que tinha que ir.

A partir deste sentimento fui guiada pro sul do Canadá, no dia 25 de setembro, alguns dias após meu aniversário de 27 anos. O meu presente de aniversário desta conferência foi o afeto. Nunca havia recebido e trocado tanto afeto com pessoas desconhecidas e conhecidas em 5 dias. Vou contar alguns dos momentos que senti  este afeto……Se este afeto aparecer em você em algum momento, é porque você estava lá e agora sabe o que estou falando. No caminho para a montanha de MontTremblant me senti voltando à infância. Um ônibus escolar, amarelo, dos filmes americanos, nos levava para este lugar mágico. Ao som da cantoria de alguns colegas da turma do fundo, que haviam se conhecido há poucas horas, comecei a me sentir em família. Ao chegarmos no meio da mata verde visualizo uma enorme fogueira com muitas pessoas ao redor e um belo pôr do sol. Não consegui acreditar naquela visão, resolvi me entregar e ser sim,e com o que estava por vir. Em alguns minutos começamos a cantar abraçados em volta da fogueira canções conhecidas e possíveis de conhecimento da maioria. Esta chegada calorosa, com calor da fogueira e o calor dos abraços entre pessoas não muito próximas até então, despertou em mim uma alegria enorme. Eu já estava satisfeita com aqueles minutos de troca, eu poderia comer um lanche e ir dormir. Eis que entro num celeiro todo iluminado, com candelabros rústicos no teto, e um enorme buffet com diversas opções: para os que comem de tudo, para os vegetarianos, para os veganos, para os intolerantes à lactose, para os intolerantes ao glúten. O cuidado com outro é percebido em cada prato, em cada detalhe, me sinto cuidada e presto mais atenção para cuidar do outro.

Mas o principal eu ainda não contei. Acontece que no meio de toda essa percepção, eu estou interagindo a todo momento com uma pessoa que sorri pra mim, se apresenta, e me escuta. Rockey, Ted, Tessa, Hal, Miriam, Andrew, Doug, Diego e muitos outros me presenteiam com amor, com afeto, com curiosidade em saber algo sobre mim. Para cada um contava algo diferente a meu respeito e sentia que cada um recebia essa informação com tanto acolhimento que parecia um olhar de um pai ou de uma mãe completamente admirado pelo seu filho. Olhares de irmão, olhares de primos, olhares. Fui muito olhada, e aprendi a olhar mais. Aprendi o olhar amoroso com o novo que está por chegar, o afeto que não se perde quando estamos nos conectando com outro ser humano. Mesmo este não sendo da família, nem mesmo um grande amigo. Afeto por um desconhecido. Um desconhecido tão parecido comigo.

Afeto. Tão simples e tão difícil de encontrar hoje em dia. Criamos plataformas digitais, redes sociais, festas, aniversários, cafés para termos troca, mas sentimos que tem sempre algo faltando. A solidão batendo à porta e a gente fechando, sem se dar conta do que nos falta. Eu também não me dava conta. Como psicóloga falo tanto sobre vínculo e afeto, mas nunca tinha percebido o real valor e falta do verdadeiro afeto. Da presença inteira ao outro, sem o medo de entregar a mão, dar um abraço, dizer o que realmente sente com o coração, e não com a mente. Daquele olhar profundo que enxerga a  alma do outro e entrega a sua alma ao outro para que ele possa nos ver.

Esta conferência me modificou. Foi tanto afeto, que ficou o essencial da vida. Recebi tantos feedbacks, alguns bem difíceis, mas tão amorosos com a verdade, que tive que aceitar e aprender. Mala grande nunca mais. Carrego o que posso e nada mais. Tenho o registro de tudo o que aprendi, de teoria a novas aplicações da improvisação, mas o que realmente me marcou foi como o afeto deve estar presente em nossas vidas, em nosso trabalho, no meu trabalho. Se eu me esquecer disso, me perdi na direção de desenvolver pessoas. Sem afeto não sobrevivemos. A vida fica mais leve, dá vontade de levantar, é mais fácil ter equilíbrio pois estamos abastecidos do combustível universal, o amor.

Estar na natureza sempre me ajudou a conectar com o que realmente importa. Mas não basta a natureza estar ali sem agirmos como seres conectados com o todo, com nós mesmos e com o outro. Interagir por 5 dias com improvisadores ou facilitadores que utilizam a improvisação aplicada me fez perceber que existe um outro princípio da improvisação, interagir com amor. Que este seja um convite a se conectar com nossa essência, seja na natureza, na cidade, no trânsito, no supermercado, no bom dia a alguém. Que esse bom dia tenha um olhar, um cuidado, uma aceitação do que outro pode nos responder ou nos surpreender.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s